Blast from the Past

Jet Set Radio Future (XB) une cultura de rua, grafite e patins turbinados

Lute (pinte) contra o sistema corrupto e gangues rivais para garantir a liberdade de expressão em uma Tokyo futurística. Com muito estilo, é claro.

A cultura japonesa tem nos dado várias pérolas do entretenimento há décadas, graças ao seu estilo característico, bizarro e muitas vezes até superexagerado. Em meados dos anos 90 até o início dos anos 2000, a cultura de rua era muito forte em todo mundo, inclusive na Terra do Sol Nascente. Isso deu origem a um dos jogos mais divertidos e únicos do Dreamcast, Jet Set Radio (Multi), ou Jet Grind Radio, como ficou conhecido no Ocidente por muitos anos.


Clássico instantâneo, o título ganhou uma nova versão que quase acompanhou o lançamento do Xbox original em 2002: Jet Set Radio Future (XB), um jogo desenvolvido novamente pelo estúdio Smilebit da SEGA, cheio de velocidade, estilo e muita diversão na ponta da latinha de tinta spray e nas rodas dos patins.

Retorno a uma nova Tokyo-to

Na aventura original, entramos na pele do jovem Beat, que acaba de entrar para a gangue GG, um grupo em busca de retomar o poder de Tokyo-to – algo como a Tokyo dos dias de hoje – da organização criminosa Rokkaku Group, que tomou conta da cidade de forma legal ao ter um prefeito eleito. Para alcançar a liberdade novamente, eles devem não só enfrentar outras gangues da área, mas também a polícia, que cai em cima sem dó dos “arruaceiros”.


Jet Set Radio Future é uma reimaginação do universo da franquia e por isso traz grande parte de sua trama parecida com a de JSR. Ele também traz um grupo de patinadores, mais conhecidos como ruddies, que lutam pela liberdade de expressão do povo, porém, com algumas diferenças. Para começar, uma das mais óbvias e importantes é a própria Tokyo-to, que, como o nome sugere, foi repaginada e traz um visual mais futurista.


Diferente também é o primeiro personagem controlado pelo jogador: o jovem Yoyo, que também era jogável no primeiro, retorna desta vez como o principal avatar (não, ele não é azul e grande – ainda). O time de gangues rivais que atrapalham seu progresso e querem tomar conta do território é parecido com o anterior: voltam Poison Jam, Noise Tanks, Love Shockers e, mais tarde, os Golden Rhino; a novidade são as Rapid 99, os NT-3000 e os The Immortal.

A trama, apesar de abordar um tema bem importante socialmente, é levada de forma bem leve e divertida, com personagens tão descolados (e bizarros) quanto possível. Todos eles ganharam uma bela repaginada para combinar com o ambiente mais futurista adotado pelo jogo, inclusive o grande Professor K, DJ da rádio pirata Jet Set Radio, dono de sabedoria profunda e responsável por contar o andamento da história.
Gum ainda possui suas "habilidades muito loucas" e seu visual radical.

Tag, skate and (don’t) die

Na área do gameplay, também há mais semelhanças do que diferenças: como um patinador, o seu principal modo de locomoção são os patins que possuem uma tecnologia que nos permite fazer coisas malucas, como deslizar em corrimões, fios e paredes, e fazer manobras radicais no ar. A maior novidade neste departamento é o boost de velocidade com um simples apertar de botão, feito quando temos 10 latinhas de spray conosco.

Para recuperar o território e salvar os habitantes da cidade, o principal objetivo é espalhar o seu grafite nas paredes e prédios por aí. E grafitar nunca esteve tão fácil como aqui. Os comandos manuais feitos a partir do botão analógico, vistos no game anterior, foram substituídos por alvos distintos no caso de artes maiores.


Outra inovação de Future é a adição dos distritos conectados, sem os limites antes impostos ao jogador. A ideia já foi utilizada em escala menor no jogo para Dreamcast, mas ainda assim era reservada somente a poucos estágios. Com isso, temos a impressão de que o mundo é realmente muito grande e altamente explorável.

Os que jogaram Jet Set Radio sabem que o verdadeiro desafio do jogo, além de alcançar os grafites de mais difícil acesso, é vencer as investidas dos policiais. Nesta reimaginação, os policiais não mais perseguem o player 1 baseado em seu nível de periculosidade, mas passaram a surgir em áreas específicas, e seu trabalho é pichá-los até que se asfixiem com a tinta e morram. Ok, não chega a isso (apesar de você ter vontade de fazê-lo muitas vezes).
Algumas missões requerem que você vença corridas e outros desafios.
Com todas as mudanças feitas, o resultado é uma jogabilidade muito mais rápida e fluida, que garante uma liberdade muito maior.

Alma sonora do grafite

Impossível se esquecer da excepcional trilha sonora da série. Sério, um dos pontos que fazem esses jogos serem tão marcantes são as músicas criadas em sua maioria pelo compositor Hideki Naganuma, acompanhado por uma boa quantidade de artistas com diferentes estilos, mas todos relacionados à cultura street e os esportes radicais.

Future conta tanto com faixas novas como com versões remixadas das antigas. Duas das mais legais, e que de tão conhecidas se tornaram a cara dos jogos, são “Let Mom Sleep (No Sleep Remix)”, remixada por Richard Jones, e “The Concept of Love”, original de Naganuma e tocada logo na tela de início. Ambas têm uma pegada mais ocidental.

É claro que o sabor tradicional japonês tinha que dar a cara também na parte do som. Um dos artistas que mais traz essa identidade ao jogo é a banda Guitar Vader. A mistura do rock alternativo dos anos 90 com letras e sotaques orientais, assim como aquele sintetizador característico, vão ficar em um loop eterno na cabeça enquanto lava louça e escova os dentes, entre outras atividades mundanas.


Poderia citar algumas faixas presentes na versão anterior que fazem falta aqui, como “Electric Toothbrush”, “Super Brother” e “Magical Girl”. Porém, se você não chegou a colocar as mãos no game em questão, este não deve ser um grande problema. Mesmo assim, a seleção é boa o bastante para dar aquele toque descolado ao jogo.

Diversão e estilo sem fim

Faz mais de uma década que aceitei a série em meu coração. Mesmo após muito tempo sem tocar em Jet Set Radio Future, a diversão é a mesma da primeira vez em que joguei. Sempre tem alguma coisa para fazer, seja tentar criar uma nova arte bacana, resgatar as Grafitti Souls espalhadas pelo cenário ou ainda jogar tudo novamente à exaustão.


Enquanto não sabemos se a retrocompatibilidade do Xbox One se estenderá à primeira geração, você que é dono de um Xbox original ou Xbox 360 pode vestir suas roupas bacanas e pular neste mundo. Lembre-se, como o game diz, grafite é uma arte, mas grafite como vandalismo é crime. Então melhor deixar o muro dos vizinhos em paz!

Revisão: Henrique Minatogawa
Capa: Felipe Araujo
Thiago Caires escreve para o Xbox Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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