Resenha

Zombrex: Dead Rising Sun, o apocalipse zumbi no Japão

Filme de Keiji Inafune prova que o co-criador de Mega Man deve focar apenas na indústria dos games.

Fã do segmento da cultura pop dedicada aos zumbis e embalada pelo lançamento de Dead Rising 4 (XBO/PC), da Capcom, bem como pelo terceiro filme da franquia de zumbis, intitulado Dead Rising: Endgame (Pat Williams, 2016), decidi trazer as resenhas de todas as obras cinematográficas do sucesso da Capcom. Contudo, nada me preparou para o desastroso Zombrex: Dead Rising Sun (Keiji Inafune, 2010), um filme de baixo orçamento com filmagem em primeira pessoa, em que a história é terrível e a dublagem para o inglês ainda pior.

De Willamette para o Japão

Originalmente, Zombrex: Dead Rising Sun foi lançado como websérie na Xbox Live Marketplace e mais tarde virou um filme, compilando todos os episódios em um único produto, o longa-metragem. A produção é dirigida pelo game designer japonês Keiji Inafune, co-criador de Mega Man, e é a primeira incursão da franquia Dead Rising no mundo do cinema.

O filme faz parte da campanha promocional de Dead Rising 2 (Multi), lançado em 2010. Assim, a obra cinematográfica apresenta algumas das funções que estariam presentes no jogo, como a procura pelo Zombrex para atrasar o zumbismo, a competição esportiva Terror is Reality e as armas de combo, Dead Rising 2 foi o primeiro jogo da série a ter o recurso no gameplay.

Zombrex: Dead Rising Sun conta a história de dois irmãos, o cadeirante George e seu irmão mais velho Shin, que com a epidemia do vírus zumbi se disseminando no Japão se veem obrigados a sair de casa e encontrar um abrigo para sobreviventes. Contudo, quando eles chegam a um armazém abandonado, eles percebem que o local está cheio de ladrões e assassinos interessados em roubar das pessoas que vão até eles pedindo ajuda. Sem poder voltar para casa por causa da escuridão da noite, eles precisam sobreviver aos zumbis e aos assassinos até o amanhecer.

Entre méritos e desastres

O elenco de Zombrex: Dead Rising Sun é composto por nomes reconhecidos do meio artístico japonês, como Taiki Yoshida, que interpreta o protagonista George. O ator e cantor é conhecido por seu papel na peça musical The Prince of Tennis, baseada no mangá homônimo de Konomi Takeshi. O irmão mais velho George é interpretado por Hiroshi Yazaki, famoso ator de cinema e dramas japoneses, como Tokyo Dogs (Takeshi Narita; Yusuke Ishii, 2009) e o filme Threads of Destiny (Shosuke Murakami, 2008). O ator e modelo Kiyohiko Shibukawa, intérprete do vilão Takahashi, é um dos grandes nomes do cinema japonês, com filmes como Ichi: O Assassino (Takashi Miike, 2001) e o ocidental Wasabi (Gérard Krawczyk, 2001), ao lado do ator francês Jean Reno.

A filmagem em primeira pessoa do filme é bem inovadora, criando a sensação de um jogo, e se intercala com momentos de flashback em terceira pessoa. O formato de câmera fechada, sem uma visão ampla do ambiente, também cria um aspecto de suspense e terror. Porém, apesar desses pontos positivos, a trama sem bom senso e os efeitos visuais vergonhosos afundam o filme na lama do desastre e da decepção.
O enredo é extremamente raso e ainda é explicado pelos próprios personagens ao longo do filme, o que torna tudo mais cansativo. Zombrex: Dead Rising Sun se passa quase inteiramente dentro do armazém, com cores monocromáticas e lugares parecidos, o ambiente cria uma imensa monotonia ao espectador. Da mesma forma, George ficar falando sozinho o tempo todo é algo muito bobo e sem razão de ser, o diretor poderia ter incluído um efeito de áudio diferente, em que os monólogos soassem como pensamentos do personagem.

As coreografias de luta são péssimas, os golpes passam longe do adversário, que se joga no chão ou se contorce de dor sem motivo aparente. A maquiagem dos zumbis está muito ruim, poderia ser bem melhor se lembrarmos de A Noite dos Mortos-Vivos, dirigido pelo consagrado diretor estadunidense George Romero em 1968. A dublagem para o inglês é outro problema crítico. O filme foi gravado em japonês e teve uma dublagem sobreposta para o inglês para alcançar um público maior, no entanto, está horrivelmente sincronizada e chega a ser bizarro ver e ouvir os personagens conversando.
A produção também não tem qualquer compromisso com o realismo, algo que ela se propõe em sua trama. Alguns personagens são esfaqueados, tem membros decepados, incendiados, mordidas de zumbis por todo corpo, mas caminham como se nada tivesse acontecido. Acho que o Glenn ainda estaria vivo se estivesse em Zombrex: Dead Rising Sun, pois parece que o Zombrex regenera até o corpo.

Narrativa séria ou cinema trash?

Algo que poderia ter salvado Zombrex: Dead Rising Sun de tamanha vergonha alheia seria Keiji Inafune ter criado o filme com o intuito de ser uma produção trash de humor negro, uma característica de Dead Rising. A obra fílmica beira o gênero camp, com interpretações exageradas e artificiais numa narrativa que tenta ser séria e dramática, porém, é impossível levar a sério tantas situações bizarras e ridículas.

Os filmes trash são produções de ultra baixo orçamento, com qualidade inferior aos filmes B — filmes de Hollywood com orçamento extremamente reduzido, geralmente longas-metragens filmados no período de dois a três dias. Então, alocar a produção japonesa neste nicho de cinema seria uma solução para o teor do filme, que poderia se utilizar de situações toscas e humor negro sobre o apocalipse zumbi sem interferir na recepção do produto final.
Zombrex: Dead Rising Sun é para os fãs mais ferrenhos de Dead Rising e que desejam entrar em contato com toda produção referente à franquia da Capcom. Porém, se você é fã do universo literário, televisivo e cinematográfico dedicado aos zumbis e espera ver uma história à la Robert Kirkman, Max Brooks ou George Romero, recomendo passar longe do filme de Keiji Inafune.

Revisão: Luigi Santana
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no DeviantArt., MGC. ou Twitter. ela aparece.

Comentários

Fórum
Google+
Facebook