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Análise: Ori and the Blind Forest (XBO/PC) é magnífico

Um dos jogos independentes mais esperados para 2015, Ori and the Blind Forest foi além do esperado, mostrando-se um jogo praticamente perfeito.

O resumo de como Ori and the Blind Forest é maravilhoso, hipnotizante e fatal como uma Súcubo vem de duas reações involuntárias que me ocorreram durante o jogo. Foram elas, na versão para menores: “Caraca que água maravilhosa, mano! Não, pera isso aqui vai me afogar!!!!" e "Por que tudo que quer me matar é tão lindo???". Sim, faltam-me elogios para dizer como Ori é esteticamente magnífico e ainda assim um jogo muito bem projetado e desafiador.


Anunciado na E3 de 2014 por poucos segundos em meio a diversos jogos de orçamento menor do Xbox, um espaço que não faz jus à qualidade do jogo, Ori chamou atenção por possuir uma arte diferenciada, mesmo se tratando de um jogo independente. Não era o único naquele ano: No Man’s Sky, Cuphead e outros também levantaram uma faísca na cabeça dos espectadores. A pergunta que pairava era se aquilo era só um rostinho bonitinho ou se havia conteúdo também.

Seu próprio Metroidvania

O trailer de apresentação pode enganar um pouco. Olhando por ele, parece ser um daqueles jogos de plataforma que requer alta precisão e aprendizado por repetição, como Super Meat Boy (Multi), mas ele não é apenas isso. Com um escopo muito maior que este, trata-se de um jogo de plataforma 2D de mundo aberto, os famosos Metroidvanias. No entanto, ele consegue uma sintonia orgânica entre a exploração e os desafios de precisão.
Não se costuma ver muitos Metroidvanias lançados porque se trata de um subgênero muito difícil de desenvolver. São jogos que requerem bastante polimento para dar ao jogador os sentimentos de exploração e evolução, de uma forma que todo o mapa se integre de forma natural e correta sem passar a sensação de que “passamos de fase”. Não a tôa, jogos bem feitos do gênero como Super Metroid (SNES), Castlevania: Symphony of the Night (PS) e Guacamelee (Multi) figuram entre os favoritos de muitas pessoas. Ori consegue, com sucesso, dar esse tom ao jogo e ainda alternar naturalmente para momentos mais acelerados.

Ori and the Blind Forest ainda possui um diferencial em relação aos jogos citados porque a evolução ocorre não apenas com Ori — a personagem principal, caso não tenha ficado claro —, mas com a própria floresta. Ela, a propósito, é uma personagem fundamental ao longo do jogo: não apenas é o cenário que precisa ser salvo, como também uma força que contribui com seu progresso. A cada missão cumprida, as forças da floresta se recuperam e abrem novas regiões, outrora inacessíveis.
Note que o tamanho diminuto de Ori em relação ao cenário é proposital, com objetivo de dar uma sensação de majestosidade da floresta e ampliar a experiência de exploração.
Esse processo de recuperação da floresta é explorado pelo jogo de forma brilhante para criar desafios variados em sua progressão. Em certo momento, temos que lidar com a limitação da respiração embaixo d’água; em outro, com a limitação da ausência de mapa; em um terceiro, com a ausência de piso não espinhoso; e em último com alteraçoes na gravidade. A existência desses momentos não é a surpresa, mas sim a leveza com a qual eles são introduzidos no jogo.

Artisticamente falando, impecável

Em praticamente todo o jogo (faço exceção aqui apenas à última fase), a estética dialoga perfeitamente com o jogador. A arte não apenas é excepcional como contribui para auxiliar o jogador a respeito do que deve fazer. O jogo de cores indica claramente o que é inimigo, o que é item coletável e o que é alvo. Tudo é feito para que o jogador não trave: se em Super Metroid o objetivo é nos inserir em um complexo alienígena, aqui estamos em uma floresta e, junto a ela, toda a liberdade propiciada a um animal nativo.

O próprio jogo de cores, em transições suaves, permite ao jogador identificar se ele ainda está na mesma região, sem necessidade de mapas. Digo suave porque o processo é diferente do que acontece no modo battle da franquia Mario Kart ou do lançado recentemente Screencheat (PC), nos quais a mudança brusca auxilia na localização rápida. Para a proposta de Ori, as mudanças devem ser sutis para que toda aquela região seja vista como um grande organismo. Some a isso tudo uma direção de som excelente e coerente com o momento de tranquilidade ou adrenalina do jogo e temos um trabalho acima da média.

Um conto de todos os amores

Tudo isso para uma bela história de amor ser contada. Ori and the Blind Forest é, antes de mais nada, um conto a respeito daquilo que fazemos para salvar e proteger aqueles que nos são queridos. Uma fábula sobre fazer sacrifícios e tomar ações inconsequentes em nome daquilo que estimamos, daqueles que precisamos. Uma história que conta com os quatro amores do grego antigo: storge, philia, agape e eros. O eros é a quarta parede.
Olha isso. Você tem certeza que um bug antes do jogo iniciar é relevante?
“Ah, mas tem uns bugs!” É, tem mesmo, principalmente ao iniciar o jogo. Mas temos aqui algo muito magnífico para nos preocuparmos com o mal funcionamento de um computador.

Prós

  • Level design orgânico; 
  • Variedade entre desafios de exploração, como nos metroidvanias, e de precisão, como em jogos de plataforma baseados em Super Meat Boy; 
  • Evolução do cenário conforme o jogo progride; 
  • Direções de arte e som impecáveis; 
  • História apaixonante. 

Contras 

  • Um bug antes de iniciar o jogo.
*Versão de XBO utilizada para análise
Ori and the Blind Forest — XBO/PC — Nota: 9.5

Revisão: José Carlos Alves
Capa: Diego Migueis
Roberto Rezende é engenheiro de computação e brinca de game designer nos tempos vagos. Acha que Mega Man X4 é o melhor jogo já feito e acha Battletoads o jogo mais superestimado da história. No pouco tempo que sobra, faz reflexões no Juiz Cachorro. Está no Facebook, mas fala muito mesmo no Twitter.

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