Discussão

Por que devemos esperar algo da Rare nesta E3?

A Rare produziu franquias históricas ao longo de sua vida e queremos vê-las de volta. É possível que isto aconteça? Como?


Não, este não é mais um texto iludido esperando que a Rare criadora de jogos incríveis no SNES e N64 volte anunciando dezenas de jogos incríveis na próxima E3. Aquela equipe que produziu títulos brilhantes na década de 1990 e outros bons na década de 2000, já nas mãos da Microsoft, já perdeu muitos de seus nomes e não é mais a mesma, até por ter sido reestruturada pela nova dona em 2010, para focar em projetos de Kinect.


Os irmãos Stamper, fundadoes da companhia, saíram de lá em 2007 e a equipe responsável por Banjo-Kazooie fundou a Playtonic Games e anunciou um sucessor espiritual para a franquia. Para não dizer que a casa toda foi abandonada, Ken Lobb, uma das grandes figuras da empresa nos anos 1990 e o paizão de Killer Instinct, é diretor criativo da Microsoft Studios, sendo inclusive supervisor da versão lançada em 2013 para Xbox One.

Então ferrou, né?

Calma, o texto só começou. Embora hoje a Rare esteja focada apenas em jogos casuais para Kinect, nunca houve momento desta década tão adequado quanto o atual para afirmar que pelo menos suas franquias estão, aos poucos, saindo do esquecimento. Em 2013, ela acompanhou o desenvolvimento de Killer Instinct e, este ano, já tivemos o retorno oficial de Conker dentro de Project Spark, com um sucessor direto de Conker’s Bad Fur Day (N64), além da presença dos Battletoads na versão de Shovel Knight para XBO (e na camisa do Phil Spencer durante a conferência de apresentação do Windows 10. Bem, na hora do pitaco vale tudo).

Phil Spencer, aliás, talvez seja o grande nome capaz de trazer as franquias da Rare de volta. Seu trabalho à frente da divisão Xbox tem sido brilhante e algumas declarações dele (como esta, em que afirmou estar desejoso de fazer uma E3 focada em IPs), bem como as ações da empresa desde a sua chegada, dão a entender que é em sua gestão que podemos presenciar este retorno. A questão é: como este retorno se dará?

Para te poupar um trabalho de pesquisa, enumero para vocês aqui as principais franquias da Rare que são IP da Microsoft:
  • Banjo-Kazooie
  • Perfect Dark
  • Jet Force Gemini
  • Blast Corps
  • Conker
  • Killer Instinct
  • Battletoads
  • Viva Piñata
A Microsoft está adotando recentemente uma política de buscar “cobrir buracos” em seu leque de títulos exclusivos. Isto é, ela está tentando oferecer aos seus consumidores jogos da maior variedade de gêneros possíveis. Suas marcas mais fortes na geração passada foram Halo, Gears of War, Forza e Fable. Buscando variar este conjunto, ano passado foi lançado Sunset Overdive, um shooter em terceira pessoa, gênero que também conta com Quantum Break para 2016. Para este ano está confirmada a exclusividade temporária de Rise of Tomb Raider, com objetivo de competir com o, na época não-adiado, Uncharted 4 (PS4), segundo analistas. Killer Instinct cobre o buraco de jogos de luta e o EA Access garante uma oferta inovadora cujos títulos até então têm massiva presença no gênero esporte. Scalebound é o provável beat ‘em up com o selo de qualidade Platinum do gênero. Com os poderosos Halo e Gears of War garantindo excelentes shooters, dificilmente um novo Perfect Dark verá a luz do sol agora, embora americanos amem o gênero. Jet Force Gemini, shooter em terceira pessoa, pode ser carta fora também.

Considerando que Conker acabou de lançar produto novo recentemente (mesmo que apenas dentro de Project Spark), restam Blast Corps correndo por fora, Viva Piñata e os fortes Banjo-Kazooie e Battletoads, ambos títulos desejados pelos fãs. Conforme comentado anteriormente, a equipe dos jogos de Banjo já não estão mais na Rare, sobrando então os sapos mutantes cujo jogo de NES eu abomino, mas muitos amam. Leve ainda em conta que hoje é a Rare quem possui a expertise na divisão Xbox de desenvolver jogos casuais para Kinect, um público que a Microsoft pode não estar disposta a abrir mão. Chegamos aqui com a pergunta em alta: como este retorno se dará?

Ousar na forma de vender

Os jogos da Rare têm sido um laboratório para a Microsoft inovar na forma de vender seus jogos. Há uma tendência geral no mundo de se passar a vender serviços em vez de produtos, haja a vista o boom de empresas que exploram este tipo de estratégia, como Netflix, Crunchyroll, Spotify, etc. No mundo dos videogames, o PlayStation Now, o EA Access e até a política de Season Pass já são passos para esta tendência. Killer Instinct e Project Spark foram, goste ou não do resultado, passos inovadores para amadurecer esta estratégia.

Aprender com as parceiras pode ser um passo.
Viva Piñata possui uma proposta interessante para se vender como serviço. Jogos free-to-play são ótimos casos de estudo para se lançar um novo jogo do gênero e acredito que cedo ou tarde esta ideia será colocada em prática para se verificar como os consumidores reagirão a isto. O advento e necessidade de se amadurecer o Windows Phone pode reforçar a integração entre o jogo e os smartphones, algo pouco explorado pela Microsoft até então. Quem sabe não aparece um Viva Piñata mobile?

Uma solução original

Banjo-Kazooie e Battletoads são duas franquias que provavelmente não têm espaço como jogos AAA mantendo suas características originais. A primeira é um tabuleiro estilizado 3D e a segunda um jogo de plataforma 2D clássico. Se como títulos AAA eles não são poderosos, como jogos de menor orçamento, distribuidos digitalmente, são um excelente trunfo na mão da Microsoft. Há cerca de dois meses, a Square-Enix abriu algumas de suas IPs para desenvolvedores indie. A terceirização do trabalho é boa para ela, que não precisa investir nos custos de desenvolvimento e mantém a marca em uso, fundamental para efeitos legais.

Aceitem a realidade que fica menos feio, Nintendistas
As IPs citadas, bem como todas as outras da Rare, são muito queridas pelo público e certamente há vários desenvolvedores independentes que ficariam felizes de ter a oportunidade de trabalhar nelas com o apoio da Microsoft. Em uma geração em que todas as gigantes afirmam amar indies, esta solução pode ser uma prova de que isto é verdade, além de uma excelente estratégia de mercado (e uma bela chance de apagar o horror que é Battletoads do NES — eu não perco uma chance) para ampliar os interessados pelo Xbox One.

Não é uma solução convencional, sequer chamaria de palpite porque não quero ser guru, mas é algo que gostaria de ver na prática. Com certeza isso nos brindaria com diversos jogos feitos por pessoas que amam o que foi a Rare no século passado.

Aceitem também que este é o melhor jogo já feito com os Battletoads

Revisão: José Carlos Alves
Capa: Felipe Araujo
Roberto Rezende é engenheiro de computação e brinca de game designer nos tempos vagos. Acha que Mega Man X4 é o melhor jogo já feito e acha Battletoads o jogo mais superestimado da história. No pouco tempo que sobra, faz reflexões no Juiz Cachorro. Está no Facebook, mas fala muito mesmo no Twitter.

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