Metal Wolf Chaos e a critica cômica da From Software

Robôs gigantes e liberdade são só a cereja no bolo desse ótimo jogo.


Uma vertente comum da comédia, embora facilmente criticável hoje em dia (e com razão), é escolher o estereótipo de algo e exagerá-lo a níveis absurdos, fazendo uma caricatura da situação abordada. Dentro disso, sabemos que os estereótipos podem variar pela região que a pessoa cresceu, pela sua educação ou até mesmo por experiências vivenciadas.


Junte a isso uma possibilidade de, ao analisar criações artisticas dos mais diversos lugares, você consegue notar certa semelhança entre obras saidas do mesmo local. Dados esses pontos, o que acontece quando você junta o estereótipo exagerado dos Estados Unidos e sua eterna luta por liberdade e a marca cultural japonesa de narrativas empolgantes e repleta de momentos de euforia?

A resposta é simples: Metal Wolf Chaos acontece.

Mecha Souls

Muito antes de Demon’s Souls e a From Software ficar conhecida como “a empresa lá que faz uns jogos dificeis pra caramba”, ela era conhecida como “a empresa lá que faz uns jogos de robôs gigantes bem legais”. Dona da série Armored Core, seus jogos de Mecha eram conhecidos pela complexidade apresentada em customização de robôs e no combate, cheio de possibilidades e calculos. Armored Core sempre foi imensamente popular no Japão, e a Microsoft tentou adquirir um titulo da série com exclusividade quando tentava fazer o Xbox vingar lá naquelas áreas. Não conseguiu, mas garantiu algumas novas IP’s somente para a sua caixa verde. Entre elas estava Metal Wolf Chaos.

Olhando MWC de longe, percebe-se semelhanças no visual e no próprio gameplay com Armored Core. É muito fácil (e comum) pensar que se trata de um spin-off, sendo que, de certa forma, esse pensamento não é de todo errado; Metal Wolf Chaos pode muito bem ser encarado como uma versão com (bem) menos complexidade de Armored Core, quase uma edição arcade. É tudo muito rápido e linear nele, sem dar o caminho para você pensar ou considerar como proceder. É um jogo bem simples, diferente de seu irmão mais velho.

A grande piada

Porém, o brilho de Metal Wolf Chaos nunca esteve em sua jogabilidade, mas sim em sua história. Em 2010, os EUA está passando por uma crise ferrada. Não só o terrorismo aumentou, como o país bate recordes de desemprego. O vice-presidente dos EUA, Richard, aproveita essa situação para executar um golpe de estado e toma o poder do presidente, Michael.

Obstinado em EXTERMINAR O TERROR (a enfase em caixa alta é justamente a forma que o jogo dá destaque para essa frase), Michael pega um Mecha, declara guerra a Richard e sai por aí exterminando milhares de soldados americanos e destruindo boa parte das paisagens conhecidas do país, como Estátua da Liberdade, Grand Canyon, entre outros.

Sempre usando a justificativa da “liberdade do povo americano”, o jogo usa o estereótipo de presidentes estadounidenses serem famosos pelo patriotismo e, em alguns casos, por fazerem atos que muitos definiriam como “badass”. Assim o jogo é conduzido, que além de engraçado  consegue tecer uma critíca incrível aos EUA da época (e, de certa forma, o atual). Ao pegar o espectro do terrorismo e transformá-lo em uma manipulação do presidente maligno e da mídia que o apoia, aumentando e distorcendo os fatos para o interesse que convém, o jogo deixa bem claro que a identidade e opinião dos produtores ainda está ali presente.

O ritmo frenético do jogo e sua temática acabam criando uma dificuldade em analisá-lo de forma mais densa, olhando para seus temas e recursos narrativos. Se você consegue passar dessa primeira camada, o jogo é bem mais surpreendente e esconde uma complexidade que beira a sátira politica. Considerando que o jogo é de 2004, quando o atentado as torres gemeas ainda era recente e Bush fazia suas maquinações contra o Oriente Médio, é perceptivel o que a From Software pensava sobre toda aquela situação.

Injogável

Infelizmente, Metal Wolf Chaos não foi lançado fora do Japão e as cópias do jogo ficaram rarissímas. Além disso, o jogo não funciona no Xbox 360, sendo um dos poucos exclusivos japoneses que não receberam retrocompatibilidade. Porém, o Youtube está cheio de vídeos de Metal Wolf Chaos, caso você queira ver o jogo. Além de que nos últimos anos o jogo começou a ficar popular na comunidade de speedrunners, fazendo que com certeza você o veja num evento como o AGDQ.

Metal Wolf Chaos é um dos melhores jogos do Xbox original, sem dúvida. Talvez sendo uma das obras mais artisticas, ele não só merece destaque na biblioteca do Xbox mas na história dos videogames como um todo. Um jogo simples com boas idéias, que não tenta ser nada além de um jogo divertido e com uma boa história.

Revisão: Gabriel Verbena
Capa: Gabrielle Mustafa

Dácio Augusto é estudante de Gestão Financeira na Fatec e redator no Xbox Blast. Cercado de jogos desde pequeno, foi crescendo e aprendendo a fazer avaliações mais lúdicas do que objetivas.

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