Blast from the Past

Relembre as aventuras de Shu e seus amigos, no divertido Blue Dragon (X360)

Não há como negar: a Microsoft não agrada o público oriental. Apesar do sucesso estrondoso da marca Xbox no ocidente, a gigante dos com... (por Gabriel Vlatkovic em 09/02/2014, via Xbox Blast)


Não há como negar: a Microsoft não agrada o público oriental. Apesar do sucesso estrondoso da marca Xbox no ocidente, a gigante dos computadores mal consegue vender algumas poucas milhões de unidades de seus consoles na terra do sol nascente. Mas isso não quer dizer que ela nunca tenha tentado. Em meados de 2005, a Mistwalker, desenvolvedora que abriga ninguém menos que Hironobu Sakaguchi, mente responsável pela franquia Final Fantasy, anunciou seu primeiro jogo: Blue Dragon. O título seria lançado exclusivamente para o Xbox 360, que ainda não estava disponível no mercado, e viria com a missão de fazer o console emplacar no Japão graças à popularidade dos RPGs no local e a fama de Sakaguchi. Apesar dos esforços e das vendas relativamente altas, o jogo não conseguiu popularizar o console da Microsoft, que, ao longo da geração passada, continuou tendo que se virar com seu cativo público ocidental. Mas todo esse esforço não foi em vão, já que os jogadores foram presenteados com um jogo muito competente, nostálgico e divertido.


A maldição da nuvem roxa

Blue Dragon se passa em um mundo que já fora próspero e pacífico, daqueles que qualquer um sonharia em viver. Pequenos vilarejos eram cercados de árvores, rios e montanhas, e as pessoas viviam em total harmonia, sem conflitos, guerras ou jogos de poder. Tudo estava muito bem até que algumas nuvens roxas começaram a surgir ao redor do mundo, e por onde elas passavam, a desgraça vinha de carona. A população começou a ser atacada por monstros, os vilarejos e cidades foram reduzidos à ruínas, e o medo começou a tomar conta de todos.

O herói Shu
Shu é um garoto como outro qualquer: brincalhão, feliz e muito apegado ao avô, que vive com ele em Talta Village, um vilarejo que mais parece Tatooine, de Star Wars, do que o tipo de cidade que estamos acostumados a ver em RPGs. O garoto, que tem menos de dez anos de idade, vê sua vida mudar completamente quando as tais nuvens roxas começam a surgir trazendo consigo um estranho ser, chamado pelos locais de Sand Shark, que acaba atacando e destruindo boa parte de seu vilarejo. Corajoso e obstinado, o menino decide se unir a dois amigos, Kluke e Jiro, para juntos derrotarem o monstro, sem saber que isso os colocaria no caminho de jornada de proporções épicas, já que o inimigo acabaria arrastando-os a um lugar muito distante de sua terra natal.

Shu e seus amigos devem salvar o mundo das garras de Nene
Blue Dragon possui uma narrativa simples, direta e sem muitas reviravoltas. Com a ajuda de seus amigos, Shu deverá cruzar o mundo em busca de sua salvação, enquanto investiga as razões do que está acontecendo. Durante a jornada, o garoto conhece diversos aliados e inimigos, e passa por diversas cidades completamente destruídas pela desgraça que assola aquele lugar. Bastante influenciado por Dragon Quest, Blue Dragon também faz com que o jogador salve de alguma situação difícil cada um dos lugares que conhece durante a aventura, o que dá bastante senso de progressão ao enredo e traz satisfação a quem está jogando, já que seus atos mudam completamente o destino cruel das localidades visitadas.

RPG de raiz

Talvez uma das maiores críticas feitas ao jogo na época em que ele foi lançado foi a falta de ousadia da desenvolvedora ao elaborar a sua jogabilidade. Blue Dragon segue à risca a cartilha dos RPGs mais tradicionais do mercado, com um sistema de batalha por turnos e um gigantesco mundo aberto que não pode ser explorado livremente graças ao enredo linear, que não permite que o jogador faça o que quiser quando bem entender.

Blue Dragon possui muitas cidades para explorar
O sistema de batalha do jogo consistia em lutas por turnos, em que a vez de cada personagem estava relacionada diretamente ao seu nível e status. Ou seja, personagens mais rápidos podem realizar uma ação antes dos menos favorecidos. O ponto mais inovador nesse sentido é que inimigos e aliados atacavam alternadamente, não havendo turnos definidos por times, e sim por personagens. Blue Dragon também contava com personagens especiais, que podem ser comparados aos Summons, de Final Fantasy. Cada integrante do time possui uma sombra azul em forma de um animal (Shu, por exemplo, possui um dragão, que dá nome ao jogo), que pode aprender habilidades e fortalecer bastante os heróis. O jogador pode definir a especialidade de cada sombra, de tal forma que os movimentos aprendidos vão de acordo com a especialidade escolhida. O sistema lembra bastante o de Jobs, e as especialidades podem ser trocadas o tempo todo para que as sombras aprendam o máximo de habilidades possíveis para combiná-las em estratégias de batalha.

O sistema de batalha é tradicional e por turnos
Quanto às passagens de exploração, o jogo é ainda mais tradicional. Shu e seus amigos se movem por um gigantesco overworld e podem entrar em vilarejos, florestas, cavernas e ruínas, e tudo é recheado de todos os outros clichês do gênero. Durante o caminho o jogador é surpreendido por batalhas aleatórias que concedem pontos de experiência e itens para ajudar no decorrer da jornada. Nas cidades, Shu pode visitar hotéis, lojas e residências de habitantes para progredir na história ou mesmo para realizar algumas missões extras bastante simples.

Shu cruzará belas localidades para completar sua missão
Apesar das críticas pesadas em cima do tradicionalíssimo sistema de jogo, Blue Dragon conseguia unir todos os elementos clássicos do gênero de maneira leve e agradável, se tornando um título bastante divertido e prazeroso de ser jogado. A criação da Mistwalker é ainda mais admirável se pensarmos que atualmente é muito difícil encontrarmos títulos que remetam aos tempos de glória do gênero, já que hoje os RPGs japoneses são cada vez mais escassos e sem graça.

Super Nintendo em alta definição

Blue Dragon é, até hoje, um jogo lindíssimo. Com gráficos muito limpos, coloridos e detalhados, o mundo do jogo é exuberante e encantador. A trilha sonora, composta por ninguém menos que Nobuo Uematsu (Final Fantasy), e o trabalho de dublagem dão um toque de inocência e nostalgia ao trabalho desenvolvido por Sakaguchi, que mais parece um jogo da era 16-bit, só que feito com a tecnologia de ponta dos consoles de alta definição.

Blue Dragon possui a alma dos RPGs da era 16-bit
Toda a aventura, que dura cerca de 40 horas, é bastante agradável e leve. Sem grandes dramas ou reviravoltas malucas. Blue Dragon é sobre crianças salvando o mundo, e só. E talvez isso seja o que mais tenha desagradado o público, que esperava algo muito mais complexo e adulto, como os jogos da série Final Fantasy lançados no final da década de 1990, para PlayStation.

Uma aventura inesquecível

Blue Dragon pode não ter salvado a pele do Xbox 360 no Japão, mas foi um senhor jogo que me cativou muito mais do que várias das grandes produções atuais. A simplicidade e a ternura do jogo, que tem sua narrativa contada de forma delicada e divertida, fazem com que o mundo de Shu pareça mágico. O universo criado por Sakaguchi foi tão belo que a franquia se tornou Anime, Mangá, e ainda rendeu mais dois títulos lançados para o Nintendo DS. Hoje em dia sinto que uma franquia assim não seria mais tão bem aceita no mercado. Mas ainda tenho fé que isso mude e que as pessoas se lembrem de como era incrível jogar um belo RPG, com menos extravagâncias e megalomania e mais sentimento.

Revisão: Samuel Coelho
Capa: Sybellyus Paiva
Gabriel Vlatkovic é economista formado pela Unicamp. Trabalha como Analista de Finanças e joga videogames há quase vinte anos. Adora ouvir música, assistir a filmes e seriados e discutir a Timeline de Zelda. Quando não está trabalhando, está no Facebook.

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