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Análise: Mirror's Edge (X360)

Há pouco mais de quatro anos, a Electronic Arts lançou um título inusitado, completamente diferente de tudo o que a publisher  apresentav... (por Jardeson Barbosa em 27/01/2013, via Xbox Blast)

Há pouco mais de quatro anos, a Electronic Arts lançou um título inusitado, completamente diferente de tudo o que a publisher apresentava na época. Unindo elementos de diversos gêneros, Mirror's Edge era a nova empreitada da DICE, desenvolvedora por trás da popular série Battlefield. Fugindo dos combates desenfreados, o novo jogo apresentou um visual mais limpo, um número nitidamente menor de inimigos e adicionou elementos de plataforma ao tradicional gênero FPS. Exclua daí o shooter e temos uma investida ousada, questionável e muito interessante.

FP... S!?

Não seria exagero afirmar que a sétima geração dos videogames foi marcada por dois extremos. Enquanto muitos jogos se mantiveram no lugar comum, o famoso "mais do mesmo", algumas desenvolvedoras arriscaram e criaram verdadeiras revoluções dentro de gêneros que pareciam imutáveis. Uma dessas desenvolvedoras foi a DICE, que, de uma forma inusitada, propôs uma revolução para o gênero FPS, favorecendo o realismo e elementos de plataforma.

Lançado no final de 2008, Mirror’s Edge é um título em primeira pessoa que em pouco lembra os populares FPS. Dentre a mistura de elementos vindos de diversos gêneros, o action/adventure é o que mais se sobressai. De FPS, temos apenas o FP mesmo, entretanto, fica nítido que a equipe da DICE desenvolveu o título com a missão de entregar uma aventura em primeira pessoa realística, um legado importante para o gênero.

Quando falo em realismo, me refiro a elementos simples, como a possibilidade de ver os membros inferiores do personagem que controlamos ou limitar os "poderes" dos personagens à capacidade humana. Além disso, todo o universo do game foi criado em torno de um minimalismo único, responsável pela sensação de imersão que persegue o jogador do primeiro ao último segundo de jogo.

Em Mirror's Edge, a personagem que controlamos possui pernas.


Correndo pela liberdade

Em Mirror’s Edge você é Faith, uma garota ágil e inteligente que, junto de uma pequena organização, tenta escapar das metafóricas garras de um governo tirano em uma distopia. A cidade, aparentemente perfeita, sofre com o controle desse governo totalitário, que mantém toda a sociedade sob seu controle. Faith, ao lado de outros runners (ou corredores), promovem uma revolução silenciosa que visa instaurar mais uma vez a liberdade individual. Os runners são como mensageiros – já que os sistemas de comunicação também são controlados –, e entre os seus objetivos está o de percorrer a cidade em busca de informações e objetos.

Faith, uma garota real.


Como tudo está sob controle, cabe à Faith (e aos demais runners) a missão de passar completamente despercebida e, para isso, ela dispões de habilidades acrobáticas, mas ainda humanas. Faith corre, pula, se esquiva e ultrapassa praticamente todos os obstáculos com movimentos ímpares, fortemente inspirados pelo parkour, técnica francesa que se tornou muito popular nas últimas décadas.

O gameplay de Mirror's Edge gira em torno dessas habilidades de Faith, que deve escapar das mãos da segurança local, que estará sempre na sua cola. Para tal, ela deve superar diversos obstáculos, como fugir por dutos de ar, pular cercas e até mesmo escapar de helicópteros em corridas a pé.

O jogo quase sempre passa a sensação de perigo, forçando o jogador a pensar rápido e a se manter ágil e confiante. Esse elemento do gameplay força uma correria desenfreada e, dadas as circunstâncias, parar pode representar o suicídio.



Graças à revolução citada no início do texto, essa correria não ganha o tom confuso que se pode imaginar. A câmera não funciona como na maioria dos títulos em primeira pessoa, a impressão que se tem é que ela acompanha os movimentos da personagem, como se fosse uma câmera presa ao seu corpo. A altura da visão também é semelhante à altura da visão humana, ampliando o alcance e permitindo que decisões rápidas sejam tomadas com maior facilidade. Além disso, o visual limpo do título ainda deixa tudo muito mais fluido. A maior parte dos cenários é colorida com tons claros, que reforçam as linhas e sombras e impedem que ocorra algum tipo de poluição visual. A ausência de informações na tela, como um HUD ou setas indicando o caminho a seguir, são fortes incentivos à exploração. Muitas vezes o jogador deve guiar-se pelas cores das plataformas. Tons que fogem do padrão claro são, geralmente, caminhos em potencial.

Falhas pelo percurso

Infelizmente, o ponto mais importante de Mirror's Edge é também seu calcanhar de aquiles. A ideia de correr sem destino certo se torna mais realista graças ao fato de o jogador jamais saber que caminho tomar. Entretanto, esse detalhe também acaba evidenciando a mecânica de tentativa e erro, um problema gravíssimo para os jogadores menos pacientes. Como a velocidade é um elemento constante, não é possível parar para analisar as rotas que deverão ser tomadas, o que força o jogador a tentar inúmeros caminhos até que o correto seja encontrado, algo cansativo e frustrante.

São raros os momentos de descanso e calma, geralmente associados aos elementos stealth presentes no game. Mesmo assim, o gameplay ainda é frustante, pois força o jogador a encontrar um jeito de alcançar determinado ponto do cenário. Como faltam setas que indiquem qual caminho seguir e como muitas vezes os cenários são homogêneos, é bem difícil saber o que é um caminho e o que é apenas um elemento do cenário. Para os jogadores, resta apenas correr, pular e cair, repetidas vezes.

A opção "Runner Vision" auxilia os jogadores colorindo de vermelho os caminhos corretos a seguir.


Falando em stealth, os desenvolvedores de Mirror's Edge criaram um sistema que beneficia os jogadores que evitam combates desnecessários e pune os que se envolvem em qualquer tipo de combate. Complicou? Bem, basicamente o sistema de combate do título é extremamente precário, tornando esse um dos pontos mais fracos do gameplay. Infelizmente, é impossível terminar o título sem abater ao menos um inimigo. As técnicas de combate corpo a corpo de Faith são ineficientes. Para isso, existem certos truques que, de certa forma, podem ser vistos como uma evolução do sistema "Real-Time Event". O combate engessado ganha um novo suspiro com essa mecânica, que permite que Faith domine os inimigos com mais facilidade. Infelizmente, nem isso é capaz de tornar aceitável o sistema de lutas, principalmente porque a mira das armas de fogo é extremamente precária.

Um jogo para poucos

De uma forma geral, Mirror's Edge pode ser visto apenas como um jogo de parkour. A história, muito bem contada durante as cutscenes em formato de desenho animado, pode passar despercebida em diversos momentos, já que é negligenciada nos principais momentos do jogo, servindo apenas como ponte entre uma fase e outra. É possível, inclusive, nem saber para onde a personagem está indo em alguns dos curtos nove capítulos.

Quanto ao parkour, é bom saber que os controles foram desenvolvidos de uma forma exemplar. Apesar de não se adequarem corretamente aos combates, nas corridas e pulos eles funcionam muito bem, e de forma simplista, nem ao menos consumindo todos os botões do controle ou exigindo combinações mirabolantes. Porém, a precisão exigida pelo título não é representada fielmente nos controles, que podem deixar o jogador na mão em diversos momentos.



Apesar das falhas, Mirror's Edge é uma experiência gratificante que não pode ser considerado uma má execução de um grande conceito. É nítido que nem todos os objetivos da DICE foram alcançados, e que nem de longe o título é para todos os jogadores. Mas a combinação de elementos de primeira pessoa, plataforma, aventura, ação e stealth gerou uma salada mista muito bem elaborada, feita para os jogadores exigentes que esperam bem mais do que o tradicional arroz com feijão. Os personagens, em especial Faith e sua colega runner, Celeste, também foram muito bem desenvolvidos e fogem completamente dos tradicionais estereótipos dos videogames. O jogo não é para ser jogado mais de uma vez, já que a graça da exploração se esvai; não é para jogadores impacientes, apesar de ser ágil e urgente, e não é para aqueles que preferem um bom combate a momentos de solidão. Entretanto, é um jogo memorável, que deixa uma contribuição importante para a indústria dos videogames de uma forma geral.

Prós

  • Originalidade;
  • Visual com falhas técnicas, porém inspirador;
  • Comandos simples.

Contras

  • Sistema de combate vergonhoso;
  • "Tentativa e erro" é um método frustrante.

Mirror's Edge – Xbox 360 – Nota: 8.0
Revisão: Leandro Freire 
Jardeson Barbosa escreve para o Xbox Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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