Discussão

Como a Microsoft matou o Xbox (ou não)

A perda de exclusivos parece ser o último prego no caixão do Xbox One, mas é tão grave assim?



Quando eu comecei a jogar ReCore (XBO/PC) para escrever a análise do jogo, uma das coisas que eu estava interessado em conhecer era o sistema Xbox Play Anywhere, que a Microsoft anunciou durante a E3 deste ano. De maneira sucinta, a Microsoft passou a promover o Windows 10 como uma alternativa e um complemento ao Xbox One. Portanto, quase todos os jogos lançados para Xbox daqui em diante — ReCore, Forza Horizon 3, Gears of War 4, Scalebound, etc. — também estarão disponíveis para compra na Windows Store. Além disso, um jogo comprado digitalmente poderá ser jogado em ambas as plataformas, com cross-save e, em alguns casos, cross-play.

Isso não foi surpreendente, porque a Microsoft já estava claramente indo nessa direção: Gears of War: Ultimate Edition e Quantum Break também foram lançados para o PC, e este último vinha com uma chave para a Windows Store junto com a cópia de Xbox. Forza Motorsport 6 Apex e Halo 5: Forge, por sua vez, indicavam que a empresa estava disposta em tirar do Xbox a exclusividade de suas maiores franquias.
Forza e Halo receberam versões simplificadas no PC, apenas dando um gostinho do que estaria por vir.
Esse tipo de intercompatibilidade é algo que sempre me interessou. Adoro poder jogar alguns indies fora de casa no Vita e poder continuá-los na TV pelo PlayStation 4 com saves sincronizados. Também é algo que adoraria que a Nintendo tivesse implementado, pelo menos para alguns jogos, entre o Wii U e o 3DS. Entre o PC e o Xbox One, a utilidade não é tão óbvia — para rodar tão bem ou melhor que o Xbox, quase com certeza será necessário um desktop. Possivelmente, poder tornar esses jogos portáteis com um laptop tem apelo a alguns usuários, mas estou disposto a apostar que a maioria dos consumidores não tem laptops capazes de rodar todos esses jogos em uma qualidade aceitável.

Então, para alguém que já tem um Xbox One, qual é a vantagem do Xbox Play Anywhere? A mais óbvia é poder rodar esses jogos sem precisar ser limitado pelo hardware do console. Meu PC, que é ótimo, mas já tem uns aninhos de idade, foi o suficiente para rodar ReCore em 1080p e 60fps com texturas e efeitos no máximo (em 1440p, resolução do meu monitor, a história era outra), enquanto o Xbox One às vezes sofria para manter 30fps. Além disso, o jogo tem "apenas" 9GB no PC, então pude instalá-lo no meu SSD e reduzir consideravelmente o tempo das telas de loading (que, como eu disse na análise, é um dos piores defeitos do jogo). Aliando isso ao adaptador wireless USB e um controle de Xbox One, acabei tendo uma sensação de que jogar no PC é "igual, mas melhor" do que no Xbox.


E, é claro, o pensamento que percorreu por minha cabeça naquele momento foi "o Xbox morreu". Eu ainda joguei ReCore mais no Xbox do que no PC, em parte porque prefiro a TV e o sofá do que o monitor e a cadeira, em parte por pura teimosia, mas constantemente me perguntava se estava fazendo a escolha certa. Como falei na análise, mudei para o PC especialmente em alguns momentos mais difíceis, já que pelo menos o tempo de loading era bem mais curto.

Mas isso não tornou a experiência do jogo no Xbox menos agradável. Os visuais e o desempenho estavam no nível esperado para jogos desta geração, considerando o que já conhecemos sobre os consoles, então jogar no PC não trazia nada realmente novo, limitando-se a tornar a experiência um pouco mais nítida e fluída.

A Microsoft, é claro, vai negar que o Xbox foi deixado de lado. O Xbox One S acabou de ser lançado, e ainda há planos muito concretos para o tal Project Scorpio. Ao mesmo tempo, a impressão passada é a de que a empresa deixou de pensar no nome Xbox como "hardware dedicado a videogames", mas sim como "plataforma de games para diversos hardwares" — sendo o Xbox One, o One S, o Scorpio, os Surfaces, os Lumias e a infinidade de laptops e desktops rodando Windows 10 apenas formas diferentes de consumir conteúdo Xbox.


Talvez isso tudo seja a visão de alguém que tem condições de jogar no PC. Pode ser que a maioria dos jogadores de Xbox estejam satisfeitos com o One, pelo preço e pela conveniência que o console permite. Simultaneamente, alguns jogadores estão tendo, pela primeira vez, a oportunidade de jogar Forza, Halo e Gears of War, enquanto jogos como Quantum Break e ReCore têm uma chance de brilhar além da audiência limitada pela exclusividade.

No fim das contas, o que faz um console ser bom ou ruim? Muitos diriam que cada plataforma é definida pelos seus jogos exclusivos. Isso fazia total sentido nos anos 1990 até um tempo atrás, quando as bibliotecas de jogos que eram lançadas para cada console eram realmente distintas. Por esse critério, o Xbox One realmente deixou de ter valor, contando com pouquíssimos jogos legitimamente exclusivos a ele. Na geração passada e na atual, talvez isso não seja mais verdade — até mesmo o PlayStation 4 tem poucos jogos de fato exclusivos. Olhando por esse lado, a jogada da Microsoft está simplesmente adequando seu console para um novo modelo para a empresa e para os jogadores.

Aqueles que compraram um Xbox One especificamente para jogar um ou outro exclusivo têm todo o direito de se sentirem traídos pela Microsoft, mas é claro que o Phil Spencer não acredita que esses consumidores fazem uma massa notável dos donos de Xbox One. Realmente parece que o Xbox está em uma má fase atualmente, mas, na verdade, está saudável o suficiente para a Microsoft continuar investindo no sistema e em seus sucessores.

Revisão: Bruno Alves

Renan Greca é diretor de áudio e podcaster do Xbox Blast, encarregado do BlastCast, além de administrador da Liga N-Blast PR. É um cientista da computação que joga de tudo um pouco, mas sua série favorita é Metroid. Não fala muito no Twitter, mas está sempre de olho nos acontecimentos.

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