Analógico

Quantum Break (XBO/PC) e a fragilidade da memória humana

Conceito de memória e esquecimento é um dos focos do título da Remedy.

Quando a ficção científica se aventura com temas de viagem no tempo é comum que os conflitos da trama tenham elementos como paradoxos, loop ou as consequências do Efeito Borboleta. Características essenciais em uma narrativa que almeja validar seu argumento com base na física quântica. Entretanto, no jogo de ficção científica de tiro em terceira pessoa Quantum Break (XBO/PC), da Remedy, o enredo também trabalha o conceito de memória e esquecimento como fatores primordiais do uso excessivo dos poderes temporais.
ALERTA DE SPOILER!
O texto a seguir possui spoilers da história de Quantum Break.

Fragmentação da memória

Memória é algo relacionado diretamente à noção de tempo, e por mais que seja simples criarmos uma imagem do tempo cronológico em nossa mente, a memória humana trabalha com um tempo descronológico e fragmentado, embasado nas principais experiências pessoais do indivíduo, sejam boas ou ruins. Em Quantum Break a sobrecarga de memórias e o consequente esquecimento é o epicentro do drama pessoal de Paul Serene.

Apesar de possuir os maiores poderes temporais do jogo, o personagem paga um alto preço pelo excedente de partículas cronum em seu corpo. Devido às sucessivas viagens no tempo ao longo de 17 anos, bem como em decorrência da doença metafísica Síndrome de Cronum, o vilão possui suas memórias divididas e sofre de um esquecimento constante da sua atual linha do tempo no presente.


De acordo com o filósofo francês Paul Ricoeur, o esquecimento possui um polo de ligação com o processo de rememoração, a busca pelas memórias perdidas. No jogo, Serene é afligido pelo excesso de linhas temporais que ele presenciou. Se o jogador optar por Pessoal na Bifurcação 2, no segundo episódio da série, intitulado Prisioneiro, Paul Serene explica a Jack como suas memórias estão confusas e caóticas.

Além das viagens no tempo, o personagem também sofre com a Síndrome de Cronum, que o coloca no patamar de um ser interdimensional capaz de prever o futuro e identificar inúmeros caminhos para a história. Entretanto, tal habilidade ocasiona o esquecimento de suas memórias pessoais e se sobrepõe ao seu estado no tempo presente. Por exemplo, logo no final do Ato 1: O Assassino Número Um é o Tempo, Paul tem seu braço direito afetado pelas partículas cronum e ele precisa controlar o efeito temporal enquanto Martin Hatch o aconselha.


No livro Quantum Break: Estado Zero, de Cam Rogers, o autor explica mais a fundo os sintomas e consequências da Síndrome de Cronum, bem como aborda essa fragmentação do braço do antagonista. Devido aos efeitos cada vez mais fortes da doença, Serene tem seu braço transformado em uma camada fragmentada de partículas cronum, o mesmo efeito que ocorre em um deslocador. Isso acontece porque o personagem está paulatinamente perdendo sua forma física, bem como as memórias de quem ele é.

Rememorando o esquecimento

O estado de fragmentação e esquecimento da memória do antagonista reflete em sua personalidade: cada vez mais violento e paranoico. Segundo o sociólogo austríaco Michael Pollak, a memória é um elemento primordial na construção da identidade do indivíduo. Sem esse entendimento, a pessoa fica perdida sobre quem ela é e qual seu papel na sociedade. No Ato 4: A História Secreta da Viagem no Tempo, durante a última bifurcação, Paul Serene fala consigo mesmo sobre algo sobrenatural que está crescendo dentro dele e seu medo de se tornar o inimigo das pessoas que ele está tentando proteger.


Pollak ainda afirma que o processo de rememoração pode usar métodos científicos para tentar resgatar memórias esquecidas de uma pessoa. Essa metodologia é usada sumariamente pela Dra. Sofia Amaral ao analisar os Diários de Sonhos de Paul Serene. Os itens encontrados ao longo do jogo mostram os sonhos sobrenaturais do antagonista e como os efeitos da doença esgotam-no física e psicologicamente.

Patrimônio imaterial

Além da ligação direta com Paul Serene, Quantum Break trabalha a noção de memória e esquecimento também nas construções arquitetônicas de Riverport, bem como seus habitantes. O protesto para salvar a biblioteca da Universidade de Riverport, as críticas ao desmantelamento de lugares históricos na Ilha das Gaivotas, entre outros são reflexo da ideologia de Paul Serene.


O antagonista não se importa em destruir tais ícones da história da cidade e as próprias pessoas que entram em seu caminho porque ele acredita que o fim é inevitável. Nesse sentido, Serene vê toda Riverport como um lugar de pessoas mortas. Para ele, todos já estão destinados à morte devido ao Fim do Tempo. Então, sua única função é sobreviver à ruptura temporal e salvar o mundo da destruição.

Serene foca todos seus esforços em sua ideia do tempo futuro, pois para ele o presente já não possui solução. Nesse cenário, ele vive à base de suas projeções de futuro, sem se abrir para outras possibilidades além daquelas que ele viu nas bifurcações temporais. O personagem é prisioneiro de suas próprias visões, pois sua memória já não funciona corretamente, então o único caminho é seguir em frente.


Quantum Break apresenta uma impressionante trama de viagem no tempo e seu trabalho no campo da memória e esquecimento traz um grande acréscimo de informações e debates sobre o assunto. O tema intrigante e pesquisado até os dias atuais é uma presença bem-vinda e que colabora com o enriquecimento da narrativa e a profundidade dos personagens.

Revisão: Vitor Tibério
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG e game designer pela Universidade Positivo. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no Twitter ou DeviantArt ela aparece.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook